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Comentário filme 'Doente de Mim Mesma'

  • Foto do escritor: Débora de Cássia Martins
    Débora de Cássia Martins
  • 25 de set. de 2025
  • 2 min de leitura
Filme: Doente de mim mesma, de Kristoffer Borgli
Filme: Doente de mim mesma, de Kristoffer Borgli

Em Doente de mim mesma (Sick of Myself), Kristoffer Borgli nos mostra a busca incessante de Signe em conquistar a atenção de um público a partir de um desejo fortemente marcado pela insaciabilidade e quase inexistente possibilidade de ser amenizado, encontrando no uso reiterado da aparência física a atração dos olhares. Tal qual seu namorado, Thomas, faz com os objetos ao transformá-los em obra, Signe usa seu corpo como matéria-prima da construção daquilo que anseia. Um anseio que a devora e pede por ações intensas e extremas.


Assim, vemos uma personagem que sente vazio e falta de sentido em seus dias, além de um profundo incômodo ao perceber que o namorado possui aquilo que ela não tem. Trata-se de uma protagonista que não consegue viver sem o olhar e a presença do outro, marcando a incapacidade de ficar só.


Winnicott (1958) afirma que a capacidade de uma pessoa ficar só “é um dos sinais mais importantes do amadurecimento do desenvolvimento emocional”. O desejo, por si só, não é suficiente; antes, ficar só é uma conquista que o indivíduo faz a partir de uma relação suficientemente boa com o ambiente, a qual permite configurar “a existência de um objeto bom na realidade psíquica do indivíduo”. Nessa perspectiva, estar só não significa isolamento, mas sentir-se acompanhado por dentro.


Na ausência dessa capacidade, observamos a dificuldade de Signe em suportar a solidão, uma vez que o encontro consigo mesma se transforma em ameaça de desintegração. Ela busca incessantemente a função escópica do outro para que sua existência ganhe sentido e contorno. Quando o olhar não é encontrado, não há confirmação, suas ações escalam na tentativa de evitar o colapso. Sua solidão é vivida como ameaça de aniquilamento, e não como espaço criativo.


Viver em função de um olhar que garanta base interna e uma possibilidade de não desintegração engendra uma vida fundamentada em reações a estímulos externos, sem espaço criativo, sem vida pessoal própria. Como afirma Winnicott (1958): “É somente quando só (isto é, na presença de alguém) que a criança pode descobrir sua vida pessoal própria. A alternativa patológica é a vida falsa fundamentada em reações a estímulos externos.”


Dessa forma, a obra pode ser lida como um retrato de uma vida sem base fundante, marcada pela necessidade de um ambiente que permitisse à protagonista desenvolver sua capacidade de estar só e viver as relações de maneira saudável e criativa — e não de forma dramática, em um lugar de sufocamento e fragmentação.



REFERÊNCIAS


WINNICOTT, D. 1958. A capacidade de estar só.

 
 
 

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